sexta-feira, 7 de abril de 2017

Trajetória de Uma Vida

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva #52semanasdegratidão da Elaine Gaspareto.


Lembro-me daquela pequena e grande mulher, com imenso orgulho porque tive a oportunidade de acompanhar os momentos mais difíceis da sua vida. 
Ela quando nasceu era uma menina linda de cabelos e olhos pretos e pele branquinha que ressaltava seus olhos grandes e cheios de expressão e beleza. Era uma menina linda! Muito linda.
Ao completar cinco meses de vida, de repente adoeceu e ninguém sabia explicar que tipo de doença se apoderou do seu corpinho frágil de cinco meses.
Não se alimentava mais e assim foi definhando e definhando até que um dia as primeiras providências para o seu funeral foi providenciado.
A casa cheia de gente para visitar aquele pequeno ser que mal respirava e a sua imagem parecia com a de um anjinho já com as feições próprias de uma criancinha quase morta! Nunca irei esquecer aqueles olhos abertos totalmente brancos, como a dizer que ali não existia mais vida.  Nessa época eu tinha apenas 8 anos. 
Lembro-me daquele dia, muito triste, até o sol que sempre era escaldante naquele dia não apareceu! Era um dia muito triste e nublado que ficou para sempre gravado nas minhas lembranças.
Todos que estavam ali aguardavam somente o seu ultimo sopro de vida!
O padre da cidade também veio como era de costume visitar as pessoas enfermas em seus últimos momentos de vida.
Pra todos os efeitos era o fim de uma vidinha de cinco meses que de um dia para o outro começou a definhar sem uma explicação cabível! Nem mesmo os médicos puderam diagnosticar o mal que se apoderou daquele corpinho!
O dia passou, veio a noite, depois o dia seguinte e depois mais um dia e de repente aquele anjinho deu um suspiro e começou a chorar!
Depois de três dias totalmente inerte esperávamos somente o seu ultimo sopro de vida e concluímos que realmente ninguém parte se não é chegada a hora.
Depois daquele choro veio para os braços da mãe que tratou de alimenta-la. E as pessoas que ali estavam não acreditariam se não estivessem vendo o que estava acontecendo.
Aquela criancinha chorou, se alimentou, recebeu todos os cuidados dali pra frente e não faleceu!



A partir daí começava outra etapa de sua vida!
Os meses passavam, completou um aninho e era sempre muito magrinha e como todas as crianças nesta idade percebíamos que ela não dava sinais de poder andar e falar.
Ainda os médicos não tinham um diagnóstico. Aliás até hoje não se sabe o que causou tamanho sofrimento a uma criancinha de cinco meses. Sabia-se que não tinha paralisia, engatinhava pela casa inteira, instintivamente se especializou em engatinhar. Às vezes ficava muito nervosa, atirava pelos ares tudo que encontrava ao seu alcance e assim viveu até os sete anos de idade, sem andar. Falava poucas palavras. Era pele e osso.
Daquela menina linda que era aos cinco meses restavam somente seus cabelos e olhos pretos, no mais se tornou uma menina feia pelo fato de ser muito magra. Tão magra que seus ossos eram visto a flor da pele. Todos os esforços no sentido de ajuda-la a andar eram em vão.  Suas pernas não tinha equilíbrio, eram puro osso envolvido em pele muito fina. Todas as providências buscava-se no sentido de ajuda-la e assim os anos se passavam. Até mesmo leite de jumenta, porque diziam que curava, cascas de ovos em pó, leite de cabra,  e nenhum remédio era capaz de reverter aquele quadro. Ate que um certo dia o médico já sem acreditar em mais nada, aconselhou a mãe coloca-la todos os dias pra tomar banho de sol. E não demorou muito para que toda essa história tomasse um outro rumo.
Um certo dia, já com sete anos preparou uma grande surpresa para todos nós. Ouvia-se um barulho na cozinha e não se sabia o por que.
Ela simplesmente desceu da cama e não se sabe como.
Engatinhou até onde havia uma cadeira, Apoiando-se nesta, levantou-se pela primeira vez e empurrando a cadeira suas perninhas frágeis deram os primeiros passos nesta vida. Metade do corpo totalmente apoiado no assento, os bracinhos se agarravam a cadeira como se fosse taboa de salvação, e as perninhas finas ensaiavam os primeiros passos para as suas conquistas. Foi a mais vibrante vitória que já pude presenciar.
Era como se ela não nos visse ali, tão concentrada estava em se apoiar com todas as suas forças e realizando talvez o seu grande sonho: o de um dia poder andar.
Sabíamos que seria uma menininha muito doente, que necessitaria de cuidados especiais para o resto da vida.
Sabemos de muito pouco ou quase nada dos mistérios que envolvem a vida!
Quase sempre criamos expectativas, traçamos caminhos que não se realizam, não compreendemos como se processa a vida.
Imaginávamos que aquela pequenina, não teria muitas oportunidades, devido a sua fragilidade.
Engano! Depois que começou a andar, meia que desengonçada e atrapalhada, também pudera, sete anos sentada em uma cadeira, não poderia ser diferente! A partir daí começou a ir a escola e foi crescendo até que se tornou uma adolescente.



E para surpresa de todos, aquela mocinha era o braço direito da sua mãe. Era como se ela quisesse retribuir a todo sofrimento que viu a sua mãe passar.
Acordava cedinho preparava o café da manhã para os seus irmãos em seguida era a responsável pela cozinha e ao meio dia a mesa com o almoço já estava pronta, ela almoçava e em seguida se preparava para ir á escola. Era metódica e organizada e a noite fazia os seus trabalhos de escola.
No dia seguinte era a mesma rotina, sem faltar um detalhe. Era a primeira a acordar, tomar o seu banho, preparar o café da manhã, em seguida providenciar o almoço, preparar a mesa, em seguida almoçar, se preparar pra ir à escola e a noite os deveres de casa.
Aos domingos religiosamente ir á missa porque a família era católica e no domingo ela depois do almoço organizava as suas coisas pessoais.
Acredito que durante sete anos que viveu sentada, viveu aprendendo cada detalhe dos passos da sua mãe.
Enquanto achávamos que ela seria uma pessoa marcada pelo sofrimento ela no silencio aprendia como conduzir a vida.
Não se tornou uma pessoa revoltada como era de se esperar já que na sua infância marcada era tão nervosa e estressada.
Quando estava nervosa jogava tudo que estava ao seu alcance pelos ares.
Também não se tornou uma pessoa medrosa, ao contrário. Ela é aquele tipo de pessoa que vai à luta com unhas e dentes, enfrentando desafios.
Estudou, fez o magistério, agora não era mais uma adolescente, era adulta e casou com um excelente rapaz de uma das famílias mais importantes da região, e foi morar no sitio. Não sei como ela conseguiu se adaptar a sua nova vida porque nasceu e viveu sempre na cidade.
Naquelas épocas tudo era mais difícil. Não existia no sitio as comodidades das cidades, tipo luz e água encanada.
Mas aquela pequenina era um exemplo de força, coragem e determinação. Na cidade onde nasceu não existia ensino superior, mas, isto não era motivo para parar de estudar.
A vida encaminha as pessoas certas no auxilio das outras. A vida oferece oportunidades a uns para que socorram os outros e analisando bem todos estamos envolvidos em um circulo de auxilio de uns para com os outros.
Foi dado a aquele pequenino ser a oportunidade da vida e agora instintivamente passaria a colaborar com o progresso de outros.
E nos arredores do sitio onde foi morar não existiam escolas. As crianças precisavam andar quilômetros até a cidade mais próxima para frequentar uma sala de aula.
E foi assim que aquela que aos sete anos não passava de um pedacinho de gente, raquítica, pele e osso, de olhos pretos, grandes e expressivos, olhar de sofrimento e dor entrava para nova fase de trajetória de sua vida.


Agora aquela jovem senhora, era uma mulher de mais ou menos 1.58m, era baixinha como dizem e bonita, de cabelos bem pretos e olhos grandes.
Sempre magrinha, mas de peso de acordo com sua altura e pernas também muito bonitas. Pra quem viveu durante sete anos sem andar era de causar admiração o fato de não carregar nenhuma sequela da sua infância sofrida.
Passando agora a residir no sitio a primeira providência tomada foi conseguir escolas para aquela região escondida por entre matas e caatingas.
Participou de concursos estaduais e municipais e agora era a professora daquelas crianças.
Não sabemos como conseguia administrar tão bem a casa, escola e faculdade.
Acordava religiosamente as 04:00 horas da manhã para enfrentar uma caminhada de quilômetros até a escola.
Terminada as aulas enfrentava esta mesma caminhada pra voltar pra casa.
À tarde, o seu marido a levava até a cidade, onde um grupo de 30 mulheres se reuniam para viajar 180 quilômetros com destino a Faculdade.
Conseguia retornar pra casa quase sempre a 01:00 hora na madrugada para reiniciar a sua rotina as 04:00 horas da manhã. Isto durante cinco anos. Quatro anos de graduação e um ano de pós-graduação.
Teve dois lindos filhos que hoje para seu orgulho maior estão na faculdade e um deles está se formando agora em medicina.
Hoje continua na sua rotina de sempre e diz que os quilômetros que anda até a escola são os elementos que lhe dá tanta saúde e disposição porque não sabe o que significa uma dor de cabeça ou uma gripe. Sempre disposta, alegre e confiante, tem sempre uma palavra amiga é aquela pessoa que podemos considerar de amiga para todas as horas.
A sua casa rodeada de arvores e plantas parece uma casinha de boneca. Retrata a confiança e o bem estar que traz dentro da alma.
Não gosta de falar da sua infância triste e eu só tomei a liberdade de escrever porque pude acompanhar de perto a sua história que mais parece um milagre.
Nas minhas lembranças ficaram aquele anjinho inerte sobre uma cama, olhos que não fechavam mais e o milagre da vida que Deus escreve em linhas que não temos a capacidade de compreender.
Esta pequenina mulher foi a mulher mais batalhadora e equilibrada que já tive a oportunidade de conhecer. E muito me orgulho por ser a sua irmã.
Sim, esta pequena e grande mulher é minha irmã e continua serena e forte na batalha da vida!
Agradeço a Deus por me dar a oportunidade de ver com os próprios olhos o milagre da vida.
Por ter uma irmã tão amiga, conselheira, carinhosa e caridosa. Hoje sei que foram os raios do sol que curaram a minha irmã. E que a fez tão forte até os dias de hoje.
Sabemos muito pouco da vida. Nem mesmo a ciência é capaz de penetrar no coração e nos dizer sobre os caminhos da vida. Só entendemos esses caminhos quando passamos por eles.
Uma vida para ser bem vivida necessita de experiências. E são as experiências que nos deixa fortalecidos, mesmo que tenhamos que cair mil vezes.
E eu agradeço a Deus por me presentear com a capacidade de entender tudo isso. 

                 

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva #52semanasdegratidão da Elaine Gaspareto.




17 comentários:

  1. Oá Maria!
    Essa história de superação me emociona muito.
    Realmente,os mistérios de Deus só Ele pode explicar.História linda!
    Bjos.

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    1. Olá Adriana!
      Aqui e ali vemos verdadeiros exemplos de superação que nos convida para a reflexão.

      Uma feliz páscoa pra você e sua familia.

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  2. Emocionante e bela história de vida que passa da dor, sofrimento à alegria de superação e que orgulho ,não? Beleza de motivo pra gratidão! bjs às duas,chica

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    1. Olá Chica!
      Realmente um belo motivo para exercer a gratidão. Obrigada pelo seu comentário.

      Grande abraço!

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  3. Eu sabia que era alguém na sua vida e quando você disse é minha irmã, emocionei-me muito mais.
    É um milagre de Deus. Que a trouxe para ajudar aos outros que precisam.
    Uma das postagens mais lindas que li até hoje, com muitos de blogueira.
    Parabéns também por escrever tão bem.
    joturquezzamundial
    Beijos.

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    1. Olá JÔ

      Não tenho palavras para descrever a minha gratidão pelas suas palavras. Só digo mesmo, obrigada do fundo do coração.

      Grande abraço!

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    1. Sim Sonia, resumindo tudo que eu quis dizer. Realmente minha irmã é uma grande guerreira.

      Grande abraço!

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    1. Olá Neusa!
      Obrigada pela visita e pelo comentário.

      Grande abraço!

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  6. Maria de Lourdes, que história linda! Fiquei emocionada. Que bela gratidão!!
    Ótima semana pra vc <3

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    1. Olá Wérica!

      Minha irmã é mesmo um grande exemplo de força, nos surpreendeu mesmo!

      Obrigada pela visita!

      Uma feliz páscoa!

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  7. Que história incrível!! Imagino o que se passou na cabeça dela ao longo de todos esses anos... Gostei muito da frase: "todos estamos envolvidos em um circulo de auxilio de uns para com os outros." Que possamos colocá-la no nosso dia a dia e ajudarmos de verdade a todos, o máximo que pudermos.
    Boa semana!!
    beijosssss

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    1. Olá Paula!

      As vezes penso que a minha irmã, na verdade nunca foi criança, por trás daquela aparência frágil existia uma pessoa madura, dinâmica proativa e acima de tudo simples.
      Uma feliz páscoa pra você e sua família.
      bjssssss

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Que linda história, Maria! Como Deus é bom! Ele surpreende a todos com seus desígnios. Que sua irmã seja sempre uma guerreira e que haja muito amor entre vcs. Bjs.

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  10. Boa noite, querida Maria!
    Atualizando comentários...
    Vc demonstra ter gratidão e vai merecer mais e mais bênçãos... creia!
    Bjm fraternal

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