domingo, 23 de outubro de 2016

A (in)tolerância

As flores toleram as abelhas,
mesmo se estas lhes tiram o néctar,
mesmo se, por vezes, por acidente,
uma pétala se machuca.

A natureza tolera os ventos que
arrastam folhas e quebram os galhos,
tolera as torrentes e correntes que não
perguntam o que carregam
na sua passagem.

A própria lua tolera as mudanças e acolhe
serenamente cada fase com dignidade.
Só nós, humanos e racionais,
somos assim intolerantes com a vida,
com o próximo,
com o que nos acontece,
com o que deixa de nos acontecer,
com as diferenças e os diferentes
que mal suportamos.

Damos de nós e queremos ficar inteiros;
recebemos e queremos continuar os mesmos,
abastados do nosso eu,
sem as máculas dos pecados que nos deixariam
iguais a todo mundo.

Queremos amar o que nos é próximo,
pois que nos disseram
"ama a teu próximo"
sendo que esse outro deve ser uma
correspondência daquilo que somos.

O que é diferente nos decepciona e nos faz sofrer.
Por isso cobramos tanto dos outros e permitimos
que essa negra nuvem encha nossa alma de tristeza ao depararmos com
ações e reações diferentes das que esperamos.

Mas não é amar tolerar que o outro
seja outro e aceitar com resignação e
alegria até que,
mesmo nos possíveis deslizes,
esse encha nossa vida de
novos ares e novas flores?!

A tolerância é uma incontestável prova
de amor e de humildade;
é o eu que se inclina para se reerguer mais rico,
mais pleno, mais aberto,
mais solto e mais livre.

Mais livre!!!
E por isso mesmo mais feliz!
Ser flexível na vida não é se curvar.
É simplesmente abrir-se como abrem-se nossas janelas para que o sol entre e
ilumine nosso recinto.

É um ceder que nos enobrece,
pois nos permite degustar da vida
nos seus mínimos detalhes.

Letícia Thompson

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